Toda vez que o Brasil enfrenta uma onda de calor, não faltam vídeos de caixas d'água aparentemente derretidas circulando nas redes sociais. O fenômeno viraliza com a mesma intensidade das altas temperaturas. Mas a física diz outra coisa: caixas d'água de plástico de boa qualidade não derretem pelo calor.
O mito que viraliza a cada onda de calor

Quando a temperatura sobe além de 37°C, as redes sociais explodem com relatos de caixas d'água "derretidas". Bahia, Amazonas, Goiás, Rio Grande do Sul, até Pernambuco já tiveram seus momentos de protagonismo nesses vídeos. A legenda sempre é a mesma: "o calor tá brincadeira", "temperatura matando infraestrutura" e coisas do tipo. Parece comprovação científica em movimento.
O problema é que não é.
O que diz a física (e a fabricante)

As caixas d'água convencionais brasileiras são feitas de polietileno, um plástico termoplástico. Segundo a Fortlev, a maior fabricante do país, esse material aguenta temperaturas de até 130°C. Antes de uma caixa d'água derreter em pleno sol, boa parte da humanidade já estaria liquidificada.
Mas espera: e aqueles vídeos que a gente vê cedendo, deformando, quase virando uma tigela? Pois é. A deformação é real. O derretimento, não.
Segundo especialistas em Engenharia de Materiais da UFMG consultados por veículos de imprensa, o polietileno pode sim se deformar sob temperatura e pressão combinadas, mas isso não é derretimento literal. A água lá dentro também esquenta, aumentando a pressão interna, e a estrutura cede se não estiver bem apoiada.
O culpado é a instalação

A Fortlev foi categórica em respostas públicas sobre casos que viralizaram em Manaus em outubro de 2026: a caixa d'água não derrete por calor. O problema é como ela é instalada.
Quando uma caixa é apoiada sobre estruturas inadequadas, como:
- Grades ou cruzetas de ferro mal distribuído
- Telhas de zinco (que absorvem calor e o transferem)
- Alicerces parcialmente suportados
- Bases de madeira ou areia
O peso da água concentra-se em pontos específicos. A combinação disso com radiação solar intensa faz a base ceder e o plástico, já sob pressão localizada, se deforma.
A Fortlev recomenda que a base seja contínua, plana e no mínimo tão grande quanto o fundo da caixa. Nada de cruzetas ou apoios cruzados. Sem essa, o reservatório sofre sobrecarga constante e, depois de tempo, simplesmente cede.
Calor extremo na Bahia em 2026

É verdade que a Bahia vem enfrentando uma onda de calor real. Segundo o Inmet, em outubro de 2026, cidades do centro-oeste baiano registraram temperaturas acima de 41°C, com umidade do ar abaixo de 15%. Correntina marcou 41,6°C no primeiro dia de outubro. Boa Nova, onde o vídeo viral foi registrado, está no interior baiano e enfrenta essas mesmas condições.
Mas mesmo com 41°C no ar e caixas expostas diretamente ao sol, o calor sozinho não derrete polietileno. É preciso a soma de: 1. Instalação inadequada 2. Peso da água pressionando pontos frágeis 3. Transferência de calor concentrada pelo apoio (como zinco) 4. Longo tempo de exposição
O risco de acreditar no mito
Viraes como esse criam uma ilusão: se nem infraestrutura básica aguenta, a culpa é do calor. Mas a verdade é mais chata: a culpa é da instalação.
Quem quer proteger sua caixa d'água pode fazer manutenção básica: revisar se a base está contínua e bem apoiada, considerar mantas térmicas (que refletem 95% do calor), e instalar em local protegido. Não precisa esperar derretimento impossível. Precisa de manutenção sensata.
A caixa d'água está ali para durar. Só não vai durar se você puser ela em pé sobre telha de zinco e achar que é normal.
Fontes
- Caixa d'água não derrete: entenda o porquê — Fortlev (fabricante)
- Caixa d'água 'derrete' em telhado durante dia de 37°C em Manaus — NC News — 2026-10-06
- Bahia enfrenta onda de calor e tempo seco nos próximos dias — Alô Alô Bahia — 2026-10-08
- Cidade da Bahia registrou 41,6ºC no primeiro dia de outubro — Agência Sertão — 2026-10-02


