Duas calopsitas no chão de cerâmica, um potinho amarelo no meio, uma comendo de cabeça baixa e a outra arrepiada do lado parecendo prestes a tomar satisfação. Quem convive com psitacídeo reconhece a cena na hora: dali a poucos segundos, a vencedora do bico-de-ferro vira o pote e espalha tudo pelo piso.
As aves do vídeo não são papagaios no sentido estrito. São calopsitas (Nymphicus hollandicus), espécie australiana descrita em verbete da Wikipédia em português como o menor membro da família dos cacatuídeos. No uso popular brasileiro qualquer ave de bico curvo e topete acaba virando 'papagaio', mas calopsita, papagaio-verdadeiro, agapornis e periquito-australiano pertencem à mesma grande ordem dos psitaciformes, conforme o Manual de Posse Responsável de Psitacídeos da Unesp. Isso importa porque o comportamento de virar o comedouro e espalhar semente pelo chão aparece nas três espécies, e tem explicação.
Forrageio: a calopsita acha que está procurando comida

Na natureza, calopsitas e parentes próximos passam boa parte do dia voando longas distâncias, alimentando-se em diferentes pontos e revirando vagens e folhagem para encontrar grãos. A bióloga Helena Truksa, especialista em comportamento animal, descreve essa rotina em artigo da Ethos Animal sobre problemas comportamentais em psitacídeos e lembra que, em cativeiro, essa possibilidade de interagir com o meio some, deixando a ave entediada e propensa a aberrações de conduta.
Uma das versões mais brandas desse tédio é exatamente o ato de mexer no pote, escolher grão por grão e deixar metade no chão. A ave está, do jeito dela, simulando o forrageio. Não é birra, é instinto.
Quando vira disputa: ciúmes e território

O segundo elemento da cena (a outra calopsita arrepiada, parada, olhando) também tem nome técnico. Truksa lista entre as principais causas de agressividade em psitacídeos o ciúme e a defesa de território, e descreve sinais que casam exatamente com a imagem: penas da cabeça e do pescoço arrepiadas, cauda aberta, corpo balançando, vocalização e investida com o bico. A ave que está perto do comedouro entende aquele pote como recurso seu, mesmo que o pote esteja no meio do chão da cozinha.
Nesse contexto, virar o vasilhame deixa de ser apenas forrageio e vira recado social. A semente espalhada significa: ninguém mais come desse pote agora.
Estresse, atenção e o tutor que paga o pato

A terceira camada é mais doméstica. Em matéria da Petz sobre calopsita estressada, veterinários listam entre os sinais de incômodo a agitação aumentada, o arrepiar de penas e a vocalização exagerada, e lembram que muitas aves passam a fazer barulho e bagunça justamente para chamar atenção dos tutores. Calopsita é bicho social, foi feita para viver em bando ruidoso, e bando ruidoso resolve diferença na hora.
Quem cria em casa sabe que jogar a ração no chão funciona, e os pássaros aprendem rápido: derrubou o pote, alguém aparece, alguém limpa, alguém serve de novo.
Como reduzir a bagunça (sem brigar com a ave)

O blog da Cobasi sobre psitacídeos e o guia da Agrosete sobre o grupo sugerem caminhos parecidos. Variar o tipo de comedouro, usar modelos com grade que dificultam o acesso de bico cheio, oferecer ração balanceada em vez de mistura de sementes (que vira festival de catação), espalhar pequenas porções em pontos diferentes para estimular o forrageio de forma controlada e investir em enriquecimento ambiental com poleiros, brinquedos de mastigar e tempo de interação com a família.
Nada disso vai zerar o entulho de casca no piso. Mas ajuda a transformar a cena de 'papagaio irritado contra os irmãos' em 'calopsita ocupada fazendo o que calopsita faz', que dá quase no mesmo, só com menos vassoura no fim do dia.
Fontes
- Alguns problemas comportamentais em Aves (Psitacídeos) — Ethos Animal — 2012-12-10
- Psitacídeos: o que são e como cuidar dessas aves — Cobasi
- O que são Psitacídeos: O Manual Completo desses Pets — Agrosete
- Manual Informativo sobre Posse Responsável de Psitacídeos — FMVZ Unesp / Cempas
- Nymphicus hollandicus — Wikipédia








