A caixa chega, o peso não bate, e na hora de abrir: em vez de smartphone, um objeto minúsculo que mal cabe entre dois dedos. Não é brincadeira, é um dos golpes mais aplicados em plataformas de compra online no Brasil.
O golpe do produto errado

A imagem já se tornou quase um meme recorrente: uma mão segurando algo minúsculo, enquanto a pessoa esperava receber um celular novo. Mas por trás do absurdo visual, há uma fraude real, documentada e crescente nos marketplaces brasileiros.
O esquema funciona assim: um vendedor cadastra um anúncio legítimo, com fotos e descrição de um smartphone. A pessoa compra, paga e aguarda. Quando a encomenda chega, o produto dentro da caixa é completamente diferente, seja uma miniatura, um pacote de café, pedras ou um brinquedo. O dinheiro saiu, o celular não chegou.
Casos assim são registrados com frequência em todo o país. Em Aparecida de Goiânia, uma aposentada de 60 anos comprou um Xiaomi Redmi 10A por R$ 969 no Mercado Livre e recebeu um pacote de café avaliado em R$ 12,72, conforme reportagem do Metrópoles. Ela relatou que já desconfiou do peso da encomenda antes mesmo de abrir: "não parecia o peso de uma caixa de celular". O estorno foi feito, mas o vendedor chegou a dizer que não arriscaria perder a conta "por R$ 1 mil".
Celular é o produto mais visado

Não é coincidência que os smartphones apareçam com tanta frequência nesse tipo de golpe. Segundo levantamento da OLX divulgado em 2025, os brasileiros perderam cerca de R$ 3,5 bilhões em fraudes de compras online em 2024, e os celulares lideram os alvos, representando 27% de todas as fraudes registradas, à frente de videogames (18%), veículos (14%) e computadores (8%).
Entre as modalidades mais comuns estão o anúncio falso (15% dos casos) e o falso pagamento (46%), mas o desvio de produto, em que algo diferente do anunciado é enviado de propósito, aparece como variante do anúncio enganoso.
Por que é difícil de evitar

O problema tem uma camada adicional de complexidade: muitos desses vendedores atuam dentro de plataformas com boa reputação, usando contas bem avaliadas, às vezes obtidas por vazamento de dados ou compradas de terceiros. O comprador vê estrelas, avaliações positivas e um preço atraente, mas abaixo da média de mercado, o que por si só já deveria ser um sinal de alerta.
Segundo especialistas ouvidos pelo TechTudo, "sempre que as informações forem confusas, incompletas ou contraditórias, o risco da compra aumenta significativamente". Outro ponto crítico: preços muito abaixo da média para smartphones são quase sempre sinal de problema, seja produto falsificado, recondicionado sem aviso ou, pior, golpe declarado.
O que fazer se isso acontecer

A primeira medida é acionar o SAC da plataforma imediatamente, sem mover ou descartar nada da embalagem. Foto do conteúdo, do lacre e do código de rastreio são provas fundamentais. Se a plataforma não resolver, o Procon e o portal consumidor.gov.br são caminhos formais. Em casos com valor relevante, o boletim de ocorrência abre a porta para ação judicial.
O Código de Defesa do Consumidor responsabiliza a plataforma de marketplace pela experiência de compra quando ela atua como intermediadora, o que dá ao consumidor direito ao ressarcimento integral, independentemente da boa vontade do vendedor.
Uma dica simples, mas que poucas pessoas colocam em prática: grave um vídeo abrindo a caixa assim que o pacote chegar. É a forma mais eficaz de provar o que estava dentro, caso o conteúdo não corresponda ao pedido.
Fontes
- Mulher compra celular pela internet e recebe pacote de café em Goiás — Metrópoles — 2023-11-24
- Fraudes em compras on-line geram R$ 3,5 bilhões de prejuízo a brasileiros — Diário do Comércio — 2025-02-11
- Golpe no Mercado Livre: como identificar e se proteger — Serasa
- Celular barato na Shopee: veja quando desconfiar, se tem garantia e mais — TechTudo — 2026-02








