Diante do túmulo do pai, um filho recebeu uma mensagem da Secretaria de Saúde perguntando se o senhor Gerson Luiz dos Santos ainda tinha interesse em realizar uma colonoscopia — o exame havia sido solicitado dois anos antes, e o paciente não estava mais vivo para realizá-lo.
"Sua colonoscopia saiu"

A mensagem chegou pelo WhatsApp, encaminhada pelo setor de regulação da Secretaria de Saúde: queriam saber se o senhor Gerson Luiz dos Santos ainda tinha interesse em realizar o exame de colonoscopia, ou se já havia realizado. Dois anos depois do pedido, o sistema finalmente tinha uma vaga. O problema é que Gerson havia morrido.
O filho gravou um vídeo diante do túmulo do pai e desabafou: "Vim trazer uma novidade boa para o senhor! Você acredita que sua colonoscopia saiu?". A cena virou símbolo de uma falha que vai muito além de um simples erro de cadastro.
A fila que não para

O que aconteceu com Gerson Luiz não é exceção — é a regra enfeitada de burocracia. O Conselho Nacional de Justiça recomenda que consultas e exames pelo SUS não ultrapassem 100 dias de espera, conforme análise publicada no Jusbrasil. Na prática, pacientes aguardam meses ou anos para exames de média e alta complexidade, como a colonoscopia.
Um levantamento do Correio do Estado sobre a fila de especialistas em Campo Grande mostrou que, com 12 mil pacientes na lista, é comum que pessoas morram antes de serem atendidas — caso do tio de um dos entrevistados na reportagem, que aguardava consulta com especialista e não chegou a realizá-la.
Um estudo publicado na revista Saúde em Debate (SciELO) analisou o tempo de espera por consultas e exames especializados em municípios do Espírito Santo e identificou um padrão de atraso crônico na regulação, agravado pelo absenteísmo — que, em parte, é causado justamente pelo longo tempo até o agendamento.
O problema do cadastro que não morre
Quando um paciente falece, seu nome não sai automaticamente das filas do SUS. Os sistemas municipais de regulação dependem de atualização manual dos dados, e a comunicação entre cartórios de registro de óbito e secretarias municipais de saúde é historicamente precária no Brasil. O resultado é que vagas continuam sendo ofertadas a pacientes já falecidos, e o aviso chega às famílias como uma segunda notícia inesperada.
O caso de Gerson não é o primeiro a ganhar repercussão. Situações análogas envolvendo o INSS, por exemplo, são tão frequentes que o próprio órgão mantém uma página explicativa sobre como evitar que dados de pessoas vivas apareçam como óbito nos sistemas — ou, no sentido inverso, como notificar o falecimento de um beneficiário para evitar pagamentos indevidos.
Mais do que um erro
A mensagem da Secretaria de Saúde não foi má-fé: foi o funcionamento normal de um sistema sobrecarregado, que liberou uma vaga depois de dois anos porque esse é o tempo que o sistema leva. O problema não está na mensagem, mas no que ela representa: um exame que poderia ter chegado em tempo útil, e não chegou.
O filho usou o vídeo para dizer ao pai o que não pôde dizer em vida. E, sem querer, documentou com precisão o que significa depender da saúde pública no Brasil.








