Em junho de 2026, uma taqueria de Guadalajara virou símbolo. Um casal usando a camisa verde da seleção sul-coreana comia tacos enquanto um mexicano ao fundo sorria como se estivesse vendo algo muito certo acontecer. Era a Copa do Mundo servindo de palco para uma história que começou há mais de 120 anos.
O sorriso que o México não conseguiu esconder

Cenas como essa se repetiram aos montes em Guadalajara durante a fase de grupos da Copa do Mundo de 2026: coreanos de camisa verde sentados em taquerias, comendo tacos al pastor, bebendo cantaritos, usando sombreros e sendo recebidos com braços abertos pela população local. Um vídeo que viralizou mostrou torcedores sul-coreanos cantando "Gangnam Style" dentro de uma taqueria, com mexicanos pulando junto. Outro flagrou Son Heung-min, capitão da seleção, comendo tacos ao pastor com companheiros de time no período de folga da concentração.
O México ganhou o jogo por 1 a 0, mas a imprensa mexicana foi quase unânime em dizer que o futebol foi o detalhe menos importante daqueles dias.
"Hermano Coreano, ya eres Mexicano"

A frase já existe desde 2018, quando a Coreia do Sul eliminou a Alemanha na fase de grupos da Copa da Rússia, resultado que classificou o México para as oitavas de final. Os mexicanos foram às ruas celebrar como se tivessem ganhado eles mesmos, e os coreanos viraram, naquele momento, irmãos de torcida. O bordão "Coreano, hermano, ya eres mexicano" tomou as redes e as ruas.
Em 2026, com os dois países no mesmo grupo outra vez e jogando em Guadalajara, a recepção foi ainda mais elaborada. Segundo o Telemundo, "centenas de torcedores sul-coreanos chegaram a Guadalajara, provaram tequila, aprenderam espanhol, visitaram mercados e usaram camisas do México com bandeiras da Coreia". O embaixador sul-coreano no México antecipou a inversão do bordão histórico: "Mexicano, hermano, ya eres coreano".
Uma afinidade que vai além do futebol

Parte do calor mexicano em receber os coreanos tem raízes muito mais antigas do que qualquer Copa do Mundo. Em 14 de maio de 1905, 1.033 imigrantes coreanos desembarcaram no porto de Salina Cruz, no estado de Oaxaca, após uma longa travessia transpacífica. Eles vinham de uma Coreia empobrecida e instável, contratados para trabalhar nas fazendas de henequém da península de Yucatán durante o governo de Porfirio Díaz.
A maioria nunca mais conseguiu voltar para casa. Fundaram famílias, misturaram línguas, criaram uma identidade que não era completamente coreana nem completamente mexicana. Hoje existe até um Museu Comemorativo da Imigração Coreana em Yucatán, dedicado a preservar essa memória.
Com mais de um século de convivência e mistura, não é exatamente surpreendente que um mexicano sorria ao ver um casal coreano apreciando um taco. É quase uma cena familiar.
A cozinha como ponto de encontro
Há também uma razão mais simples, que qualquer cozinheiro entende: as duas cozinhas combinam. Ambas têm o picante como linguagem principal, usam fermentados com generosidade e constroem pratos em cima de grãos e proteínas simples transformados por tempero e técnica. Conforme reportou o Excélsior, "tanto a gastronomia mexicana quanto a coreana utilizam o picante para potencializar os sabores, o que facilita uma conexão natural entre suas cozinhas". Não por acaso, já existem tacos com kimchi como topping em restaurantes de fusão no México, e chefs mexicanos fazendo sucesso em Seul.
O casal de camisa verde num restaurante mexicano, com um morador local sorrindo ao fundo, é uma foto que poderia ter sido tirada em qualquer momento dos últimos cem anos. A Copa só colocou mais gente assistindo.
Fontes
- Aficionados coreanos convierten una taquería de Guadalajara en fiesta mundialista al ritmo de 'Gangnam Style' — Infobae — 2026-06-12
- Heung-min Son come tacos en Guadalajara con su familia y compañeros antes de México vs Corea del Sur 2026 — TUDN — 2026-06-14
- Mundial 2026: México gana a Corea del Sur 1-0 — minuto a minuto — Telemundo — 2026-06-15
- Aenikkaeng: La historia olvidada de los migrantes coreanos de México — Aconcagua.lat — 2022-01-01
- ¿Por qué los coreanos aman México? Su perspectiva sobre nuestra cultura — Excélsior — 2024-01-01
- Carinho e amizade: mexicanos adotam a Coreia do Sul na Copa — Placar — 2026-06-13







