A imagem de uma gata cercada por seus filhotes e uma galinha ao lado é comovente, mas a questão que surge é: será que realmente funciona? A resposta vem da biologia do comportamento animal.
O que explica essa amizade entre espécies

O que se vê nessas cenas não é magia, é biologia. Na etologia, o campo que estuda o comportamento animal, esse fenômeno chama de cuidado aloparental: proteção oferecida a filhotes que não são descendentes diretos. Ocorre entre animais da mesma espécie, sim, mas também pode acontecer entre espécies diferentes quando as condições estão certas.
Em mamíferos como gatas, hormônios como prolactina e ocitocina desencadeiam comportamentos maternos. Quando uma fêmea recém-lactante ou gestante é exposta a sinais infantis, seu corpo reconhece aqueles estímulos: cheiros, vocalizações, movimentos frágeis, comportamentos de busca por alimento. O tamanho reduzido dos filhotes e seus pedidos também ativam respostas de proteção mesmo em animais de espécies distintas.
Convivência desde cedo muda tudo

Há um detalhe crucial: esse cuidado funciona melhor quando os animais se conhecem desde filhotes. Segundo especialistas em comportamento animal, a fase de socialização dos filhotes é fundamental. Se a gata e a galinha crescem juntas, ou se entram em contato nos primeiros dias de vida dos gatinhos, a rejeição baseada em instintos naturais fica reduzida.
Mais que isso, quando uma gata tem filhotes e há convivência com aves, o instinto predatório felino — que normalmente seria disparado pela galinha — fica suprimido pelo contexto de maternidade ativa. A gata está focada em proteger sua ninhada e reconhecer sinais infantis, não em caçar.
Um caso documentado no Brasil

Isso não é apenas teoria. Há poucos meses, uma situação exatamente como essa foi registrada numa propriedade em Pedranópolis, interior de São Paulo. Uma galinha adotou uma ninhada de gatinhos recém-nascidos, cobrindo-os para mantê-los aquecidos após a gata se afastar temporariamente. Os donos perceberam que o cuidado era genuíno e precisaram intervir apenas para garantir que os filhotes continuassem mamando na mãe biológica.
Em galinhas, especialmente as poedeiras criadas em ambientes rurais, esse comportamento protetor é ainda mais natural. A galinha pode acomodar dezenas de pintinhos sob suas asas, aquecendo e protegendo. Se essa mesma ave convive com filhotes de outra espécie desde cedo, seus instintos parentais disparam de forma similar.
O lado real dessa convivência

Porém, a ciência é clara em um ponto: essas adoções exigem acompanhamento veterinário e supervisão constante. A galinha pode fornecer calor e proteção contra intempéries, mas não leite nem nutrição adequada — o filhote precisa voltar à mãe para amamentar. Além disso, conforme os gatinhos crescem e desenvolvem instintos de caça, a dinâmica muda.
Não é afeto no sentido humano. O comportamento que vemos é resultado de hormônios, pistas sensoriais e contextocultural. Mas isso não torna menos real o cuidado oferecido, nem menos admirável a capacidade de diferentes espécies de se ajudarem quando precisam.
Fontes
- Gatas que amamentam cachorros e cães que protegem gatinhos: por que animais adotam outras espécies? — Cataraca Livre — 2026-09-07
- Galinha 'adota' ninhada de gatinhos recém-nascidos em sítio em Pedranópolis — Região Noroeste — 2026-08-27
- Espécies bem diferentes podem viver sob o mesmo teto — Estado de Minas — 2015-10-10
- Behavioral phenomena in the animal kingdom: alloparenting — Wikipedia


