Uma senhora que pula de alegria ao ganhar uma manta com os rostos do BTS pode parecer inusitada à primeira vista. Mas, no Brasil de 2025, ela está em boa companhia: o ARMY brasileiro tem cada vez mais espaço para quem passou dos 50, dos 60 e até mais.
O ARMY não tem carteirinha de idade

A ideia de que k-pop é coisa de adolescente esbarra em uma realidade muito mais complexa quando você olha para o Brasil. Uma reportagem do Jornal O Casarão, da Universidade Federal Fluminense (UFF), publicada em outubro de 2025, apresentou Joana D'arc, servidora pública de 65 anos de Niterói, que descobriu o BTS durante a pandemia de Covid-19. Foi a sobrinha quem a apresentou ao grupo coreano como fuga da rotina exaustiva de trabalhar em hospital público. "Eu vi o Jimin com aquele cabelo vermelho e pensei: 'nossa que coisa linda!'" ela conta na reportagem.
A história de Joana não é exceção. É a ponta visível de um fenômeno que pesquisadores e jornalistas especializados já documentam há alguns anos.
Uma onda que vai muito além dos 18 anos
Dados do Spotify de 2020 apontam que cerca de 53% dos fãs de k-pop têm entre 18 e 24 anos. Mas o número, longe de impor um teto, evidencia que quase metade do público já está fora da faixa típica de jovem adulto, e esse contingente só cresceu desde então. Segundo a Revista Babel, publicação acadêmica da ECA/USP, os streams de k-pop cresceram 230% no mundo desde 2018, puxando novos públicos para dentro do gênero.
A pesquisadora Daniela Mazur, da própria UFF e integrante do grupo de pesquisa MidiÁsia, explica que o universo do k-pop "é muito criativo e ativo", lançando grupos, programas e produtos com frequência que "alimenta os fandoms como poucas indústrias no mundo conseguem fazer". É essa constância que atrai e retém fãs de todas as idades.
O preconceito que não convence
Na prática, mulheres adultas que assumem ser fãs de k-pop ainda enfrentam questionamentos sociais. A Revista Babel (USP) registrou em 2023 a saga de fãs na casa dos 30 que constroem comunidades, viajam ao exterior para shows e colecionam álbuns físicos, tudo sob o peso de um olhar que considera esse comportamento "constrangedor" para quem saiu da adolescência.
A jornalista Carol Steinert, editora-chefe da Hit! Magazine e fã de k-pop há 14 anos, resumiu o problema para o Jornal O Casarão: existe ainda a ideia de que k-pop "é coisa de criança" e que as pessoas que trabalham com o gênero "são todas amadoras". Isso enquanto multinacionais como Gucci, Louis Vuitton e Samsung já perceberam o poder de compra desse público e fecharam contratos milionários com artistas coreanos.
O BTS como porta de entrada
Dentro do k-pop, o BTS ocupa uma posição particular. O grupo foi um dos primeiros grandes atos coreanos a se apresentar no Brasil e construiu aqui uma base de fãs chamada ARMY que se destaca pela diversidade geracional. A própria Joana D'arc, de 65 anos, entrou no universo coreano diretamente pelo BTS e pelos k-dramas, sem qualquer mediação de filha adolescente ou neta adolescente: foi a sobrinha, mas poderia ter sido o YouTube ou a Netflix.
Para ela, as mensagens do grupo funcionam como alento. Segundo o Jornal O Casarão, ela acredita que "se fãs conseguem acreditar neles, elas com certeza vão ter um pouco mais de força para lutar nos seus verdadeiros mundos".
Presente com tema do BTS: uma linguagem de afeto
Dar um presente temático de artista favorito para alguém que você ama tem uma lógica afetiva bastante direta: você está dizendo que conhece a pessoa de verdade. No caso das fãs mais velhas do BTS, esse tipo de gesto carrega um peso extra, porque reconhece uma paixão que o senso comum frequentemente nega. A reação de alegria genuína, quase de surpresa por ser vista, é um reflexo disso: não é sobre a manta estampada com rostos do grupo, é sobre ser levada a sério como fã.








