Uma cena que parece saída de desenho animado: um gambá minúsculo, de frente para um cachorro várias vezes maior que ele, batendo as patinhas no chão como se fosse entrar numa briga de verdade. Ridículo? Sim. Mas também completamente natural.
O pequeno que não sabe que é pequeno

O gambá é um dos poucos marsupiais nativos do Brasil e, apesar de carregar a fama de bicho assustado que finge de morto, ele tem um repertório de defesa bem mais variado do que isso. Quando se sente ameaçado mas ainda não chegou ao ponto de desmaiar de medo, o gambá parte para a intimidação: arqueia as costas, levanta a cauda e, sim, bate as patas no chão, numa sequência de sinais de alerta que funciona como um aviso aos predadores para que recuem.
Conforme descreve o Mundo das Pragas, "quando se sentem ameaçados, eles podem bater os pés, arquear as costas ou levantar a cauda" como aviso para que o agressor se afaste. Só se esse sinal for ignorado é que o bicho escalona para recursos mais pesados.
Da pose brava ao teatro da morte

O gambá tem uma escada de respostas defensivas. A primeira é a postura ameaçadora, com boca aberta mostrando os dentes e ruídos de aviso. Se não funcionar, pode liberar um fluido glandular de cheiro forte. E se a situação ficar realmente feia, o animal entra em colapso e finge de morto com tanta convicção que até babando, numa resposta involuntária que confunde predadores acostumados a reagir ao movimento da presa.
A Opossum Society of the United States documenta esse comportamento com detalhes: o estado catatônico é involuntário, ativado pelo medo extremo, e o animal só "acorda" quando o perigo passou. Segundo o site, "predators find 'the kill' part of the stimulus to eat; therefore, an inert opossum does nothing to excite their appetite."
O filhote batendo as patinhas está, portanto, no começo dessa escada. É a tentativa mais otimista: fazer o outro recuar antes de precisar ir para o drama maior.
Por que um filhote faz isso?

Filhotes de gambá nascem depois de uma gestação de apenas 12 a 13 dias, chegando ao mundo com cerca de 1 cm de comprimento e 2 gramas, segundo o InfoEscola. Completam o desenvolvimento dentro do marsúpio da mãe. Quando finalmente saem para o mundo, carregam os mesmos instintos dos adultos, mesmo sem ter a massa corporal pra sustentá-los.
O resultado prático é exatamente a cena que virou curiosidade na internet: um animal minúsculo, em pleno desenvolvimento, adotando a postura de "não chega perto" diante de um pitbull que provavelmente só queria cheirar aquele negócio estranho. O cachorro, por sua vez, é um predador doméstico que, na maioria dos casos com gambás, fica mais confuso do que ameaçado.
O gambá não é tão frágil quanto parece
Apesar do tamanho e da aparência de bicho assustado, o gambá tem uma vantagem evolutiva considerável: é resistente ao veneno de serpentes como a jararaca, imune à raiva e pouco suscetível a várias doenças que afetam outros mamíferos. No Brasil, as duas espécies mais comuns, o gambá-de-orelha-branca e o gambá-de-orelha-preta, são animais noturnos, solitários e com papel ecológico relevante, inclusive no controle de pragas como o caramujo-gigante-africano, conforme aponta a Toda Matéria.
Então, da próxima vez que um gambá filhote encarar um cachorro grande batendo as patinhas no chão, saiba: ele não está sendo ingênuo. Está sendo exatamente o que a evolução programou que ele fosse.








