A cena é simples: um controle verde do Nintendo 64, uma TV de tubo e o personagem Link segurando a ocarina na tela. O que vem a seguir, porém, é o Hino Nacional Brasileiro soando nota a nota, executado com os botões do controle.
Como o controle do N64 virou um instrumento musical

Em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, lançado em 1998 para o Nintendo 64, a música não é só trilha sonora: ela é mecânica central do jogo. Link carrega uma ocarina e o jogador precisa tocar melodias reais usando os botões do controle para avançar na história, resolver puzzles e se teletransportar pelo mapa de Hyrule.
Não é metáfora: os botões C e A do controle correspondem a notas musicais distintas, e o botão R permite ajustar o tom em semitom. O resultado é que qualquer pessoa com paciência e ouvido razoável pode reproduzir músicas reais dentro do jogo, usando apenas o N64.
Segundo reportagem da Arkade, essa ideia não foi acidente: o próprio layout do controle do N64, com seus botões dispostos em arco, lembrava os furos de uma ocarina real, o que tornou natural o mapeamento das notas. Shigeru Miyamoto, diretor criativo do jogo, defendeu a mecânica porque queria que tocar o instrumento fosse uma ação genuinamente interativa, não apenas um botão único que disparasse uma animação.
Koji Kondo, responsável pela trilha sonora, trabalhou com apenas cinco notas para as melodias do instrumento. A limitação foi usada a favor: temas curtos de três notas soavam coesos e fáceis de memorizar, mas juntos cobriam uma gama ampla de situações dentro do game.
A ocarina: um instrumento com mais de 12 mil anos
A ocarina em si é um dos instrumentos de sopro mais antigos da história humana. Segundo o Hyrule Legends, site especializado na franquia Zelda, há registros independentes do instrumento tanto na tradição chinesa quanto centroamericana, com mais de 12.000 anos de existência.
O nome que usamos hoje foi cunhado no século XIX, na região de Bolonha, Itália, pelo luthier Giuseppe Donati, e vem do dialeto bolonhês: significa "pequeno ganso", porque o formato arredondado do instrumento lembrava a cabeça do animal.
No jogo, os botões substituem os furos físicos da ocarina real. Quanto mais furos abertos (ou seja, quantos botões são pressionados e em que combinação), diferente é a nota produzida. A lógica é a mesma do instrumento de verdade: não é o comprimento do tubo que define o som, mas a combinação de aberturas.
Por que o Hino Nacional funciona no jogo
O Hino Nacional Brasileiro tem uma melodia relativamente simples em termos de intervalos, o que torna possível reproduzi-la dentro das cinco notas disponíveis na ocarina de Ocarina of Time, com as variações de tom que o botão R permite.
Não é a primeira vez que alguém explora essa possibilidade: a comunidade de fãs de Zelda no mundo inteiro há décadas testa músicas do cotidiano dentro do sistema musical do jogo, de hinos a temas de novela, de músicas folclóricas a canções populares. O N64 virou, de certa forma, o primeiro videogame em que o controle funcionou como instrumento musical de verdade, em vez de apenas disparar animações pré-gravadas.
A escolha do Hino Nacional dá ao feito um sabor particular: une a nostalgia de uma geração que cresceu com o cartucho verde de Zelda nos anos 90 e o orgulho de descobrir que um símbolo nacional cabe dentro de um game japonês de 1998.








