Um filhote de jabuti do tamanho da palma de uma mão mastigando o primeiro pedaço de goiaba da vida, com a cara contorcida num esgar que qualquer dono de bicho jura ser nojo puro. A cena viralizou e divide opiniões sobre o que é fofura e o que é apenas mecânica de mandíbula.
Goiaba está, sim, no cardápio do jabuti

A cena que vem rodando os feeds brasileiros é curtinha e basicamente irresistível: um filhote de jabuti, do tamanho da palma de uma mão, mastiga um pedaço de goiaba pela primeira vez e contorce a cara de um jeito que qualquer dono de bicho jura ser "careta de nojo". O vídeo encanta porque o jabuti parece estar avaliando a fruta com a seriedade de um sommelier, mas a verdade biológica é menos dramática: ele tá só comendo, e comendo o que devia mesmo estar comendo.
Goiaba é uma das frutas mais recomendadas para a dieta de jabutis em cativeiro. A Clínica Gaiavet, especializada em animais exóticos, lista goiaba ao lado de maçã sem semente, mamão, melancia, banana e manga como opções seguras para a porção de frutas da alimentação desses quelônios. O Portal Melhores Amigos, citando a médica-veterinária Erika Hayashi, repete a goiaba na mesma lista de frutas liberadas, junto de pera, uva, caqui e pêssego.
No habitat natural, então, a fruta é praticamente comida de berço. Reportagem do Mundo Ecologia sobre o jabuti-piranga, espécie comum no Cerrado e na Amazônia, descreve que o bicho passa boa parte do dia procurando frutas caídas no chão, com destaque pra manga, goiaba, jatobá, caju, pitanga e araçá. Ou seja: o filhote do vídeo tá experimentando algo que a espécie inteira come há milênios.
Mas a proporção importa

O detalhe que muita gente apaixonada por jabuti esquece é que fruta não deveria ser a base da refeição. O site Eu Sem Fronteiras publicou um guia de dieta balanceada que sugere a divisão clássica usada por criadores e veterinários: cerca de 70% de verduras (principalmente folhas verde-escuras), 15% de legumes, 10% de frutas e os 5% restantes em cálcio, minerais e proteína animal eventual.
Goiaba todo dia, em quantidade grande, vira problema. O excesso de açúcar das frutas tropicais desequilibra a flora intestinal do animal e pode causar diarreia, além de favorecer obesidade num bicho que, lembrando, pode viver entre 80 e 110 anos e ultrapassar 12 quilos quando adulto, segundo a Gaiavet. Então o ideal é tratar a goiaba como sobremesa ocasional, não como prato principal.
E a tal 'careta'?

A reação do filhote, com a boca abrindo e fechando exageradamente e os olhos meio espremidos, não é nojo nem espanto. Jabutis não têm musculatura facial pra esboçar expressões emocionais como cachorros e gatos. O que rola é mecânica pura: a língua e a mandíbula trabalham juntas pra esmagar pedaços grandes de fruta, e o bicho fecha os olhos por reflexo enquanto engole, parecido com o que humanos fazem ao bocejar ou espirrar. Como a fisionomia do casco e da cabeça já dá ao animal um ar permanentemente sério, qualquer movimento extra vira 'careta' aos olhos de quem assiste.
Não que isso tire a graça. Vídeos de jabutis comendo morango, tomate-cereja e fatia de melancia viraram gênero próprio no YouTube e no TikTok brasileiros, e parte do encanto vem justamente desse descompasso entre a lerdeza do bicho e o entusiasmo com que ele ataca a comida.
A parte chata: jabuti não é pet de pegar na feira

Vale o lembrete que muita gente passa batido. Jabuti é animal silvestre brasileiro e só pode ser mantido em casa com autorização do IBAMA e comprovação de origem em criador legalizado. O blog da Cobasi explica que essa exigência vale tanto pro jabuti-tinga quanto pro jabuti-piranga, as duas espécies nativas mais comuns no comércio legal.
A World Animal Protection Brasil vai mais longe e desencoraja a prática mesmo legalizada, argumentando que o jabuti não passou por milhares de anos de domesticação como cães e gatos e que mantê-lo em ambiente doméstico suprime comportamentos naturais da espécie. Tirar um filhote da natureza só pra render vídeo fofo no celular, então, não só é crime ambiental como pressiona ainda mais uma população já castigada pelo tráfico.
Para quem já tem o jabuti em casa, com papelada em dia, a dica fica: ofereça a goiaba, registre a careta, mas garanta que o resto da semana o cardápio seja predominantemente folha verde. O bicho agradece, e ainda continua atravessando décadas comendo do jeito que sempre comeu lá no mato.
Fontes
- Saiba como alimentar seu jabuti — Clínica Gaiavet
- Tartaruga, cágado e jabuti: dica de alimentação adequada — Portal Melhores Amigos
- A alimentação do Jabuti Piranga: O que pode e não pode comer — Mundo Ecologia
- O que o jabuti come? Prepare uma alimentação balanceada — Eu Sem Fronteiras
- Saiba tudo sobre o jabuti e como ter um em casa — Blog Cobasi
- Descubra por que jabutis não são animais de estimação — World Animal Protection Brasil







