Uma rajada forte de vento e o kitesurf deixa de ser esporte aquático para virar uma modalidade involuntária de voo. A cena parece absurda, mas os registros de pessoas sendo lançadas ao ar durante a prática do esporte se multiplicam pelo mundo, incluindo casos fatais e situações gravíssimas no litoral brasileiro.
A física brutal por trás do momento

O kitesurf funciona porque uma pipa gigante, presa ao praticante por linhas de alta resistência, captura a energia do vento e o traciona sobre a água. O problema é que essa mesma física funciona ao contrário: em rajadas inesperadas, a força ascensional da pipa pode superar o peso do praticante inteiro e simplesmente arrancá-lo do chão ou da água.
Segundo o Corpo de Bombeiros Militar do Ceará, "qualquer alteração nas variáveis velocidade/direção podem trazer risco em potencial aos praticantes", e o correto cálculo das condições de velejo, levando em conta peso do praticante, tamanho da pipa e velocidade do vento, é obrigatório para que o esporte seja praticado com segurança. Em condições de tempestade, a velocidade do vento pode dobrar em questão de minutos, tornando uma sessão tranquila num cenário de emergência.
Casos reais: quando o vento vira inimigo

O exemplo mais extremo dos últimos anos aconteceu em Bat Yam, Israel, em janeiro de 2026. Um vórtice de vento repentino lançou dois kitesurfistas a mais de 150 metros de altitude durante uma sessão em condições de tempestade. Um deles, Lior Dadon, kitesurfista experiente com mais de duas décadas no esporte, morreu ao ser arremessado contra rochas. Outro saiu com ferimentos sérios. Segundo a revista Surfer, quem presenciou descreveu como "uma das coisas mais loucas que já vi na vida".
No Brasil, o acúmulo de acidentes graves provocou reação institucional. Em setembro de 2025, a Marinha do Brasil proibiu a prática do kitesurf em área da Praia do Forte, em Natal (RN), após acidente com o ex-deputado federal Rafael Motta, que foi lançado pelo vento e sofreu quedas sucessivas, uma delas desacordado. Segundo reportagem do portal Saiba Mais, especialistas no esporte apontam o "death loop" (quando o kite entra em movimento descontrolado de giros) como uma das situações mais perigosas, capaz de arremessar o praticante repetidamente.
Em setembro de 2024, no Ceará, uma turista chilena perdeu o controle do equipamento em meio a ventos fortes em Jericoacoara e foi ferida, precisando ser transferida para a Santa Casa de Sobral, segundo a CNN Brasil.
Por que isso acontece com mais frequência do que parece
O kitesurf depende de vento para funcionar, e vento é imprevisível. Um conjunto de fatores torna certos momentos especialmente perigosos: rajadas acima do calculado, mudança súbita de direção, equipamentos em tamanho incompatível com as condições do dia e, sobretudo, falta de treinamento adequado para acionar os sistemas de segurança da pipa.
A pipa moderna tem mecanismos de despressurização rápida (os chamados "quick release" ou "chicken loop") que, quando acionados corretamente, cortam a força do kite em segundos. O problema é que, em situações de pânico ou surpresa total, nem praticantes experientes conseguem reagir a tempo, como o caso em Israel demonstrou de forma trágica.
Sítios especializados como o SurferToday documentam décadas de acidentes filmados por câmeras de praia, todos com o mesmo padrão: um instante de calmaria, uma rajada inesperada e o praticante vai ao ar.
O que fazer (e o que não fazer)
Os Bombeiros do Ceará recomendam nunca praticar sozinho, verificar a previsão de vento com antecedência e sair da água imediatamente se o céu mostrar sinais de temporal. Também é fundamental nunca velejar em ventos "off-shore" (vento que sopra do mar para a terra) sem apoio de embarcação, pois a correnteza pode arrastar o praticante para o alto mar em caso de acidente. Para iniciantes, o único caminho seguro é a escola com instrutor certificado, ponto final.








