Parece caos, mas tem nome e tem séculos de história: quando mulheres mais velhas aparecem para dificultar a entrada da noiva na cerimônia de casamento, estão seguindo uma tradição chinesa que data da Dinastia Han. E as damas de honra, nesse contexto, não seguram buquê — protegem a noiva de verdade.
O que é o naohun, afinal

O naohun (闹婚, literalmente "perturbar o casamento") é uma prática milenar que existe na China desde a Dinastia Han, entre 221 a.C. e 207 a.C. A ideia original era simples: amigos e parentes têm o direito de "beber e rir, falar e agir sem restrições" durante a cerimônia, para garantir uma atmosfera animada. Na prática, isso se traduziu em convidados que testam os noivos, humilham os padrinhos e bloqueiam a noiva de entrar ou de se sentar.
Segundo o site de análise cultural What's on Weibo, o naohun inclui uma série de tarefas e brincadeiras que o casal e seu séquito são obrigados a cumprir por exigência dos convidados. Negar é praticamente impossível, já que a recusa pode ser interpretada como má-educação ou sinal de mau agouro para o casamento.
As damas de honra como escudo

Não é de hoje que as damas de honra chinesas acumulam uma função diferente da que o mundo ocidental conhece. Na Idade Média, as madrinhas se vestiam iguais à noiva propositalmente para confundir clãs rivais que tentassem sequestrar a noiva durante a cerimônia — segundo o Mega Curioso, elas colocavam a própria vida em risco para protegê-la.
Com o fim das guerras de clãs, o perigo mudou de forma: hoje as damas de honra são o alvo preferido do naohun. São elas que recebem as brincadeiras mais pesadas, enfrentam humilhações públicas e absorvem o fogo cruzado para que a noiva chegue ao altar mais ou menos intacta. A solidariedade entre elas, que aparece nesses momentos, tem raízes históricas claras.
Uma tradição que divide a China

O naohun é polêmico dentro da própria China. Nos últimos anos, vídeos mostrando brigas, constrangimentos e até acidentes em casamentos viralizaram no Weibo e acenderam debates nacionais. Em abril de 2021, o governo chinês lançou um programa-piloto de reforma de costumes matrimoniais em Henan e depois expandiu para 15 regiões do país, com o naohun entre as práticas visadas pelas autoridades.
A What's on Weibo registrou um caso célebre envolvendo a atriz Liu Yan, que foi carregada por padrinhos e quase jogada numa piscina durante o casamento do ator Bao Beier. O episódio chegou ao topo dos trending topics do Weibo e reacendeu o debate sobre onde a tradição termina e o abuso começa.
Uma das consequências mais inusitadas desse contexto: a China criou um mercado de damas de honra profissionais — mulheres contratadas para ocupar o papel e aguentar o naohun no lugar das amigas da noiva. Os serviços, segundo o Mega Curioso, podem chegar a R$ 400 por cerimônia.
Por que funciona como proteção coletiva
O que os vídeos que circulam com noivas cercadas pelas damas de honra ilustram é exatamente essa camada histórica: o grupo fecha fileira para bloquear acesso de quem tenta interferir. A "ameaça" mudou, a formação ficou. Não é coincidência que as damas andem juntas, de vestidos iguais, posicionadas estrategicamente. É memória muscular de uma tradição que existe há mais de dois mil anos — mesmo quando ninguém presente sabe disso.








