A cena ganhou status de meme: a fêmea de polvo, farta da cantada, junta detritos e dispara contra o macho. A boa notícia é que existe estudo científico por trás. A complicada é que a versão viral exagera o que os pesquisadores realmente flagraram nas câmeras de Jervis Bay.
Um estudo real virou meme aquático

A cena parece quase humana: uma fêmea de polvo, cansada da insistência de um macho que ronda sua toca, junta um punhado de detritos e dispara contra ele. A imagem viralizou em vídeos curtos e em redes sociais como prova de que "elas também não aguentam mais", e a parte boa é que há, sim, um estudo científico por trás disso. A parte chata é que a versão popularizada simplifica (e exagera) o que os pesquisadores realmente viram.
A fonte de tudo é um artigo publicado em novembro de 2022 na revista PLOS ONE, liderado por Peter Godfrey-Smith, filósofo da ciência e biólogo da Universidade de Sydney conhecido por suas pesquisas sobre cognição em cefalópodes. Junto com colegas do Alaska Pacific University e outras instituições, ele analisou mais de 24 horas de filmagens subaquáticas feitas em Jervis Bay, na costa leste da Austrália, em uma região apelidada de "Octopolis" e "Octlantis" por concentrar uma densidade incomum desses bichos.
O que a câmera realmente flagrou

O personagem do estudo é o Octopus tetricus, espécie conhecida em inglês como "gloomy octopus" (polvo melancólico). A equipe contou 102 episódios em que polvos juntavam conchas, sedimento ou pedaços de alga entre os braços e propeliam esse material pela água. E aqui está o primeiro detalhe que a viralização engole: eles não atiram com os braços, como um humano lançaria uma pedra. O empurrão vem do sifão, aquele tubo que normalmente serve pra locomoção a jato. O polvo posiciona o sifão sob o manto dos braços e dispara um jato d'água que carrega os detritos vários comprimentos de corpo adiante.
Outro dado que cai bem com a legenda do meme: das 102 jogadas registradas, cerca de dois terços foram feitas por fêmeas. E em pelo menos uma sequência analisada, uma única fêmea acertou cinco vezes um macho que tentava se aproximar para acasalar a partir de uma toca vizinha, conforme reportagem da Smithsonian Magazine. Em outra observação, uma fêmea fez 17 arremessos em uma hora, com nove deles atingindo outros polvos. Reportagens em português, como a do Metro World News e do Conexão Planeta, repercutiram a mesma conclusão: machos insistentes levam concha na cara com certa frequência.
Onde o resumo de internet exagera

Agora a ressalva, porque ela importa. Em entrevista à revista Discover Wildlife, da BBC, Godfrey-Smith ponderou que apenas cerca de 33% dos arremessos acertam outro polvo. A maioria parece ser, na prática, faxina de toca: o bicho limpa o entorno expulsando lixo, e às vezes o vizinho está no caminho. Os alvos também não são só machos cantadores. Numa das sequências, oito dos nove acertos foram dirigidos a uma fêmea próxima, não a um macho.
Os autores escrevem no próprio artigo que "demonstrar intenção em animais não humanos é difícil" e que não viram, por exemplo, episódios claros de retaliação. Vários arremessos vigorosos foram feitos contra água aberta, sem alvo nenhum. Ou seja: existe um padrão estatístico que sugere uso social do gesto, mas chamar isso de "elas costumam atirar pedras em machos chatos" é um atalho narrativo, não uma descrição cirúrgica.
Vale anotar mais um detalhe técnico: o material lançado é quase sempre concha, sedimento ou alga, raramente algo que se possa chamar de "pedra" no sentido estrito. A Sci.News descreveu o comportamento como uma forma incomum de uso de objetos no reino animal, comparável apenas a alguns episódios documentados em primatas e aves.
Então a história é verdadeira?

Em essência, sim. O Octopus tetricus fêmea, observado em alta densidade na costa australiana, atira detritos com frequência maior do que os machos, e há registros bem documentados em que esses arremessos pegam machos que tentam acasalar à força. Mas o gesto não é exclusivo desse contexto, nem todo tiro é proposital, e a "pedra" costuma ser concha ou lama disparada por um jato de água, não um arremesso com o braço. A imagem do polvo feminista pode ser exagerada, porém a ciência por trás dela é real, foi publicada em revista revisada por pares e segue sendo discutida quatro anos depois da sua estreia.
Fontes
- In the line of fire: Debris throwing by wild octopuses — PLOS ONE — 2022-11-09
- Female Octopuses Throw Things at Male Harassers — Smithsonian Magazine — 2021-09-01
- Octopuses Caught on Camera Throwing Debris at Each Other — Smithsonian Magazine — 2022-11-10
- Do female octopuses really hurl rocks at males? The viral video, debunked — Discover Wildlife (BBC) — 2026-04-23
- Octopuses Witnessed Throwing Silt, Shells and Algae around Themselves and at Each Other — Sci.News — 2022-11-10








