A foto do tatu rechonchudo sendo segurado por dois funcionários do Ibama de Eunápolis, no extremo sul da Bahia, voltou a rodar por aí com a legenda de que o bicho vivia de cuscuz e fubá. A história existe, é de 2009, e tem uma reviravolta triste no fim. O cardápio, porém, era outro.
O que aconteceu de verdade

Em novembro de 2009, a Gerência Executiva do Ibama em Eunápolis (a 643 km de Salvador) recebeu um tatu-peba (Euphractus sexcinctus) com 16,2 kg. Para a espécie, o peso é absurdo: a média de um adulto saudável fica entre 3 e 6 kg, segundo o boletim do A Tarde publicado na época. O animal tinha cerca de cinco anos e mal conseguia andar.
O bicho vinha de um cativeiro na cidade de Canavieiras, no sul baiano, e foi entregue voluntariamente, motivo pelo qual o dono não foi multado. A gerente executiva do Ibama na época, Cleide Guirro, lembrou em entrevista que o tatu-peba é alvo recorrente de caçadores na região e que manter o animal em cativeiro é crime ambiental, com multa de até R$ 5 mil por bicho e detenção de seis meses a um ano.
A dieta não era cuscuz

A versão que viraliza hoje fala em "cuscuz e fubá". A descrição que aparece nas reportagens originais é diferente. O biólogo do Ibama Lucas Mendonça da Mota, que acompanhou o caso, contou ao A Tarde que o animal era alimentado com fubá de milho e galinha fresca. Um blog local que cobriu a história na mesma semana fala em "mingau de milho". O segundo texto da ANDA, agência de notícias de direito animal, e a reportagem do Correio 24 Horas repetem a mesma versão: comida humana calórica, com proteína animal pronta.
A confusão com cuscuz provavelmente nasceu de quem viu "fubá" e completou o estereótipo regional. Cuscuz nordestino, aliás, é feito com flocão de milho, não com fubá puro. Os dois pratos pertencem ao mesmo universo cultural, mas não aparecem nos relatos oficiais sobre esse caso específico.
O ponto biológico é mais grave do que a piada do prato. O tatu-peba é onívoro, e um estudo da Unesp sobre ecologia alimentar da espécie no Pantanal mostra que ele consome principalmente insetos, raízes, frutos e carniça em condições naturais, andando longas distâncias para isso. Tranca o bicho num quintal com galinha desfiada e fubá e o resultado é o que apareceu na foto.
Distúrbio hormonal e sedentarismo

O diagnóstico do veterinário do Ibama foi de obesidade mórbida com distúrbio endócrino-hormonal causado pela dieta calórica. Como vivia trancado, o tatu também retia líquido e tinha vida totalmente sedentária. Nos primeiros meses no Ibama, com ração leve e algum espaço para caminhar e cavar, o animal chegou a perder cerca de dois quilos e parecia melhorar.
Final triste

O plano era engordar menos, fortalecer e devolver o tatu à natureza em cerca de dois meses. Não rolou. Em 19 de fevereiro de 2010, depois de um período no Centro de Triagem de Porto Seguro, o animal morreu. A necrópsia citada pelo A Tarde apontou hemorragia pulmonar provocada por complicações renais, sequela direta dos anos em cativeiro. O caso virou referência informal em palestras de educação ambiental no extremo sul da Bahia justamente porque condensa, numa foto só, o estrago que a criação ilegal de fauna silvestre causa.
Veredito
A história checa no essencial: existiu mesmo um tatu-peba de 16,2 kg apreendido pelo Ibama na Bahia em 2009, vítima de obesidade mórbida por causa de uma dieta inadequada em cativeiro. O detalhe do cardápio é que escorregou na repostagem. O cuscuz entrou na lenda; nas fontes originais, o vilão é galinha fresca com fubá de milho.
Fontes
- Tatu com obesidade mórbida se recupera no Ibama de Eunápolis — A Tarde — 2009-12-01
- Tatu-peba com obesidade mórbida morre em Eunápolis — A Tarde — 2010-02-19
- Tatu-peba de 16kg é entregue ao Ibama no município de Eunápolis — Correio 24 Horas — 2009-12-01
- Tatu-peba de 16 kg morre em Centro de Triagem de Porto Seguro — Correio 24 Horas — 2010-02-19
- IBAMA recebe tatupeba pesando 16 kg em Eunápolis (BA) — ANDA - Agência de Notícias de Direitos Animais — 2009-12-02
- Ecologia alimentar de Tatu-Peba, Euphractus sexcinctus, na Fazenda Nhumirim, Pantanal da Nhecolândia, MS — Repositório Institucional Unesp — 2013
- Tatu com obesidade mórbida é encontrado em Eunápolis — Blog Reinan Moreno — 2009-12-01








