Num estúdio de podcast, um jovem com Síndrome de Tourette executou um de seus tiques mais peculiares: fez o sinal da cruz e, em seguida, mandou um beijinho para o nada. A cena durou segundos, foi completamente involuntária e fez rir e encantar ao mesmo tempo.
O que são tiques complexos e por que eles podem parecer gestos propositais

A Síndrome de Tourette é um transtorno neuropsiquiátrico caracterizado pela presença de tiques motores e vocais involuntários, que surgem geralmente na infância, entre os 5 e 7 anos. O que muita gente não sabe é que esses tiques se dividem em dois tipos: os simples e os complexos.
Tiques motores simples são rápidos e sem forma definida: piscar, encolher os ombros, sacudir a cabeça. Já os complexos envolvem sequências de movimentos mais elaboradas que, de longe, podem parecer gestos intencionais. Segundo a Estratégia MED, exemplos de tiques motores complexos incluem saltos, tocar objetos e comportamentos que imitam ações cotidianas.
É exatamente aí que entra o sinal da cruz seguido do beijinho: uma sequência motora que, na mente de quem assiste, parece ritualística ou coreografada, mas é apenas o cérebro executando um padrão que ele não consegue suprimir.
Por que é tão difícil segurar o tique?

O Manual MSD descreve os tiques como "movimentos involuntários rápidos, sem propósito, repetitivos, mas não rítmicos", e aponta que "a compulsão de se mover ou fazer sons é irresistível". A capacidade de suprimir varia de pessoa para pessoa e tende a ser maior em adultos, mas mesmo quando alguém consegue segurar por um tempo, a pressão aumenta até o tique acontecer de qualquer forma, como uma coceira que precisa ser coçada.
O jornal português Jornal de Notícias descreve bem essa dinâmica ao falar num "duelo entre o cérebro e o corpo": a pessoa com Tourette frequentemente sente um impulso premonitório (uma sensação física de desconforto) que precede o tique, e o alívio vem só depois que o movimento ou som acontece.
O Tourette além da coprolalia

Um dos maiores equívocos sobre a Síndrome de Tourette é associá-la quase que exclusivamente à coprolalia, o tique vocal que faz a pessoa dizer palavrões ou frases ofensivas de forma involuntária. Na prática, a coprolalia aparece em apenas uma minoria dos casos. A grande maioria das pessoas com Tourette tem tiques que não envolvem nada de obsceno.
O caso do sinal da cruz com beijinho ilustra bem essa diversidade. O tique pode ser absolutamente singular para cada pessoa e mudar ao longo do tempo, inclusive em resposta ao estresse, ao cansaço ou ao contexto emocional. Situações como uma entrevista ao vivo, por exemplo, podem intensificar a frequência dos tiques por conta da tensão.
Por que o momento viralizou
Há algo no contraste entre um gesto tão carregado de significado cultural (o sinal da cruz) e o complemento inesperado (o beijinho) que captura a atenção imediatamente. A reação das pessoas não é de zombaria, mas de algo parecido com reconhecimento: a imprevisibilidade do corpo humano, exposta em público, sem filtro.
Para quem tem Tourette ou conhece alguém com a condição, momentos assim também servem como ponto de entrada para conversas mais sérias sobre o que a síndrome realmente é, bem além das caricaturas que aparecem em filmes e séries.








