Acordar do nada emitindo um som que lembra mais um bode do que uma pessoa parece coisa de filme de terror, mas a cena se repete em quartos brasileiros com mais frequência do que se imagina. A medicina do sono tem nome, classificação e até polissonografia pra esse tipo de episódio.
Um susto comum entre casais

A cena descrita por quem divide cama com um parceiro barulhento costuma ser parecida: a pessoa senta na cama, abre os olhos vidrados, solta um som gutural que não parece humano e, segundos depois, volta a deitar como se nada tivesse acontecido. No dia seguinte, não lembra de nada. Para a medicina do sono, isso não é possessão nem mau presságio. É parassonia, um termo guarda-chuva que reúne comportamentos atípicos durante o adormecer, o sono ou o despertar.
Os Manuais MSD descrevem parassonias como transtornos do comportamento ligados a momentos em que o cérebro pisa simultaneamente no acelerador da vigília e no freio do sono. Resultado: a pessoa age, fala, anda ou grita sem estar de fato acordada.
Sonilóquio: falar (ou balir) dormindo

Quando o som que sai da boca é mais vocal do que motor, o quadro mais provável é o sonilóquio, a fala durante o sono. O professor Alan Eckeli, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP, explicou ao Jornal da USP que, na maior parte das vezes, o indivíduo comenta o conteúdo do sonho e a fala sai incompreensível. Pode vir como sussurro, palavra solta, frase desconexa ou, sim, ruído animalesco.
O Hospital Albert Einstein classifica o sonilóquio como uma das parassonias mais comuns e mais inofensivas. Em material publicado no portal Vida Saudável da instituição, médicos lembram que privação de sono, dias agitados e apneia aumentam a frequência e a complexidade desses episódios. Tradução: noite mal dormida e estresse acumulado tendem a transformar o quarto num teatro.
Quando o som vem com susto: terror noturno em adulto

Se o episódio é mais dramático, com grito alto, taquicardia, suor e olhar de pânico, a hipótese muda de nome. O terror noturno é descrito pela Wikipédia em português, com base em literatura médica, como um distúrbio caracterizado por gritos durante o sono acompanhados de semblante aterrorizado, como se a pessoa estivesse vendo algo que não está ali.
A otorrinolaringologista e médica do sono Sandra Doria Xavier resume no próprio site que sonambulismo, despertar confusional e terror noturno são parassonias do sono NREM, mais frequentes na infância mas perfeitamente possíveis em adultos. Em geral, quem viveu o episódio não consegue se lembrar dele depois.
Uma reportagem da Medscape reforça a descrição clínica: pacientes em terror noturno costumam sentar na cama, gritar, se debater e exibir hiperatividade do sistema nervoso autônomo, com pulso e respiração acelerados. Acordar a pessoa no meio do episódio raramente ajuda. O melhor é proteger o ambiente e esperar passar.
REM mal-comportado: quando o sonho vira pantomima

Há ainda um terceiro suspeito, mais sério. O transtorno comportamental do sono REM acontece quando o mecanismo que paralisa os músculos durante a fase de sonhos vívidos falha. Resultado: a pessoa atua fisicamente o que está sonhando. Conforme a CNN Brasil, o sono REM é justamente o estágio em que o corpo normalmente fica em paralisia muscular temporária. Quando essa trava não funciona, vem soco no ar, chute no parceiro, fala alta e, eventualmente, vocalizações esquisitas.
A Mayo Clinic alertou em reportagem traduzida em 2024 que esse quadro, mais comum em homens acima de 50 anos, pode anteceder doenças neurodegenerativas como Parkinson e demência por corpos de Lewy. Não é regra, mas é motivo para investigar com neurologista quando os episódios são frequentes e violentos.
Quando procurar ajuda
Um balido isolado depois de uma semana puxada provavelmente não significa nada além de cansaço acumulado. O cenário muda quando a cena vira rotina, atrapalha o sono do casal, vem acompanhada de risco físico (cair da cama, machucar o parceiro) ou aparece pela primeira vez na vida adulta com intensidade alta. Nesses casos, médicos do sono costumam pedir polissonografia, exame que mapeia o que o corpo faz durante a noite.
A dica que se repete em praticamente todas as fontes consultadas é menos romântica do que viral: dormir o suficiente, manter horário regular, tratar apneia se houver e moderar álcool e telas antes de deitar tendem a calar os bodes internos sem precisar de remédio.
Fontes
- Quem fala dormindo sofre de sonilóquio — Jornal da USP — 2019-12-17
- Sonambulismo e outras parassonias: principais informações — Hospital Israelita Albert Einstein
- O que acontece no cérebro de um sonâmbulo? Cientistas explicam — CNN Brasil
- Parassonias — Manuais MSD
- Mulher de 38 anos grita e se debate durante o sono — Medscape Brasil








