Sai um morador com o celular, filma o chão da casa coberto de gafanhotos enfileirados em direção à roça, e a cena viraliza. A pergunta é sempre a mesma: por que esses bichos andam em bando, como se estivessem em formação militar? A resposta, segundo entomólogos brasileiros, é menos misteriosa do que parece, e tem muito mais a ver com clima, lavoura e biologia do que com presságio.
Não é um único bicho, são pelo menos três

O que o brasileiro do interior chama genericamente de 'praga de gafanhoto' costuma envolver espécies bem diferentes. A mais comum em surtos recentes no Norte, Nordeste e Centro-Oeste é a Tropidacris collaris, conhecida em algumas regiões como tucurão ou gafanhoto-de-coqueiro. Em maio de 2025, moradores do povoado de Taboca, em Presidente Olegário (MG), filmaram uma infestação que tomou conta de plantações inteiras. Em entrevista ao site PO Hoje, a doutora em Entomologia Daniela Santos Martins Silva, da UFV/MG, identificou justamente a Tropidacris collaris, descrita como uma 'praga ocasional' que ocorre da Colômbia à Argentina, passando pelo Brasil.
Fêmeas adultas dessa espécie chegam a 10,5 cm de comprimento. Quando aparecem em grupos grandes, conseguem desfolhar uma árvore inteira, deixando só as nervuras das folhas. Esses bandos, segundo a entomologista, duram poucos dias e percorrem distâncias curtas, porque o tucurão voa pouco. Daí a impressão de 'exército marchando': eles andam mesmo, no chão, em massa, em vez de levantar voo.
O caso clássico do sul: o gafanhoto sul-americano

O outro personagem famoso é a Schistocerca cancellata, o gafanhoto sul-americano, que em 2020 chegou perto da fronteira do Brasil vindo da Argentina e deixou o Ministério da Agricultura em alerta. Esse, sim, voa longe. O professor Ângelo Parise Pinto, do Departamento de Zoologia da UFPR, explicou na época que cerca de 20 espécies no mundo se comportam como 'locustas', ou seja, mudam de comportamento conforme a densidade populacional aumenta e passam a se deslocar em nuvens que podem percorrer até 200 quilômetros por dia. No Brasil, duas espécies têm esse perfil: a própria Schistocerca cancellata e a Rhammatocerus schistocercoides, segundo reportagem da UFPR.
A Tropidacris collaris, por outro lado, não forma nuvens propriamente ditas. Forma o que produtores rurais chamam de bando, manada ou exército: uma concentração caminhante que avança pelo solo.
Por que eles 'agem assim'?

A resposta curta envolve três variáveis: clima, alimento e densidade. O professor da UFPR resume que 'a alteração que fizermos nos sistemas naturais favorece as explosões de insetos'. Estiagem prolongada, monocultura sem barreira de mata e aumento de temperatura criam o cenário ideal para que poucas espécies se multipliquem muito acima da média. Quando a densidade populacional cruza certo limite, as locustas literalmente mudam de fisiologia e comportamento, ficando mais sociais, mais agressivas e mais migratórias.
No caso do tucurão, a dra. Daniela Santos Martins Silva ressalta que há uma geração por ano e que, durante a estação seca, os adultos saem das áreas de mata fechada em direção a regiões úmidas ou plantações, atrás de comida. O cardápio é vasto: folhas e frutos de coqueiro, abacate, banana, mandioca, manga, limão, algodão, seringueira e às vezes cana e arroz. É por isso que as cenas mais comuns mostram esses bichos cobrindo justamente roças de mandioca ou pés de fruta no quintal.
A 'marcha' que ataca a roça

O fenômeno não é nem novo nem isolado. Em 2020, produtores de Cuiabá (MT) relataram à Compre Rural que a Tropidacris collaris devastava pés de manga e caju nas redondezas. Em março de 2026, o produtor Gilmario Mendes registrou um bando atacando a plantação de mandioca da Fazenda Olhos D'Água, em Ibotirama (BA), segundo o portal Notícias da Gente. E em alerta histórico publicado pela Revista Cultivar, pesquisadores já apontavam o risco recorrente de surtos no Cone Sul.
O problema, alertam os especialistas, é que faltam manuais atualizados de controle. A Portaria GM/MAPA nº 208/2020 estabeleceu medidas emergenciais, mas valeu apenas por um ano e foi pensada para a Schistocerca cancellata, não para o tucurão. Quando o bando aparece no quintal, o produtor fica com pouca orientação técnica, e a tendência é apelar para inseticida em área aberta, com risco para o solo e para quem mora perto.
Resumo da história
O 'exército' que aparece nos vídeos não é um enxame raro nem um sinal apocalíptico. É um comportamento descrito pela ciência há décadas, ligado a espécies nativas que reagem à seca, ao calor e à oferta de monocultura. Eles agem assim porque a biologia manda, e porque o ambiente está dando o estímulo certo. O recado dos pesquisadores é que casos como esses precisam ser acompanhados de perto, porque ainda se sabe pouco sobre o ciclo de vida do tucurão e ainda menos sobre como conter a marcha sem detonar o resto da lavoura.
Fontes
- Vídeo: Moradores registram infestação de gafanhotos no povoado de Taboca — PO Hoje — 2025-05-11
- Da nuvem de gafanhotos ao enxame em alto mar: pesquisador da UFPR explica o fenômeno da migração de insetos — Universidade Federal do Paraná — 2020-07
- Gafanhotos 'gigantes' atacam fazendas no Brasil — Compre Rural — 2020-09-09
- Surto de gafanhotos prejudica plantação de mandioca na região — Notícias da Gente — 2026-03
- Nuvem de gafanhotos a caminho do Brasil — Revista Cultivar — 2020



