O vídeo é curto e desconcertante: uma mulher acelera uma Honda Pop branca dentro da recepção da UPA 24h enquanto pacientes assistem da fileira de cadeiras. A legenda que acompanha a cena nas redes garante que ela teria invadido a unidade para acordar médicos que estariam dormindo. O registro policial, a equipe da unidade e a Prefeitura de Guanambi contam outra coisa.
O que realmente aconteceu na UPA de Guanambi

A cena foi registrada na noite de 23 de maio de 2024, por volta das 23h50, na UPA 24 horas de Guanambi, no sudoeste da Bahia. Segundo a Agência Sertão, policiais do 17º Batalhão de Polícia Militar foram acionados para conter uma mulher de 52 anos que havia entrado na recepção pilotando uma moto branca, modelo Honda Pop 100, acelerando dentro do prédio. Ela foi contida pelo segurança da unidade antes da chegada da PM.
Quando os militares chegaram, encontraram a mulher em estado de surto psicótico. A assistente social presente na UPA informou que ela era paciente acompanhada pelo Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do município. A mesma informação aparece em reportagens do BNews, do A TARDE e do Informe Baiano, todos publicados na sequência do episódio.
A versão do "protesto contra médicos dormindo"

O vídeo só virou febre nacional cerca de um mês depois, quando foi reciclado no X (antigo Twitter) com uma legenda diferente: a de que a mulher estaria revoltada com a demora do atendimento e teria entrado de moto para acordar a equipe médica que cochilava nos plantões. Foi essa versão que prendeu o engajamento e que continua reaparecendo a cada novo ciclo de viralização.
O problema é que nenhuma das reportagens locais que cobriram a ocorrência no calor do momento traz essa motivação. Não há registro de que a mulher tenha mencionado demora, fila ou médicos dormindo. Não há entrevista com pacientes que sustente isso. O que há, em todas as matérias, é o relato coincidente da equipe da UPA, da PM e da assistência social: ela passou mal, teve um episódio agudo e dirigiu até a UPA já em crise.
A nota da Prefeitura de Guanambi

A Prefeitura de Guanambi divulgou uma nota oficial sobre o caso, reproduzida pelos veículos que cobriram a ocorrência. O texto afirma que a mulher já era usuária do CAPS, sofria de transtornos psiquiátricos e estava sem a medicação adequada no momento do incidente. A nota também diz que ela havia procurado a própria UPA duas vezes no mesmo dia, sem nenhum tipo de comportamento agressivo ou reclamação sobre o atendimento recebido nessas idas anteriores.
A prefeitura foi explícita ao tratar do boato que se espalhou junto com o vídeo. Conforme registrado pela Agência Sertão, a administração municipal afirmou que "a situação não tem qualquer relação com a demora no atendimento ou falta de profissionais médicos na unidade". A família da paciente, segundo a mesma nota, manifestou desconforto com o uso do vídeo em disputas políticas locais.
O desfecho dentro da UPA

O trecho que aparece no vídeo termina antes do que veio depois. A equipe da própria UPA atendeu a mulher: ela foi medicada no local, estabilizada e entregue aos cuidados da filha ainda durante a madrugada, segundo o Diário do Centro do Mundo e a Super Rádio Tupi. A Polícia Militar lavrou ocorrência, mas a paciente não foi conduzida à delegacia, justamente porque a avaliação técnica no local apontou crise psiquiátrica, não conduta criminosa premeditada.
Nenhum dos veículos que cobriram o caso registra qualquer plantonista flagrado dormindo, advertência interna a profissionais ou abertura de processo administrativo contra a equipe da UPA naquela noite. Esse elemento existe apenas na legenda que viraliza, não nos documentos da ocorrência.
Por que o boato pega tanto
A imagem de uma moto acelerando dentro de uma sala de espera é forte por si só, e a frustração com filas de UPA é universal o bastante para que a explicação do "protesto" pareça plausível à primeira olhada. É justamente por isso que o vídeo se descola da realidade a cada novo compartilhamento. A história verdadeira, de uma paciente do CAPS em crise por falta de medicação contínua, é menos divertida de comentar e expõe um problema bem mais incômodo: o da assistência em saúde mental na rede pública, e não o de médicos cochilando no plantão.
O que o vídeo mostra, então, é o sintoma de uma falha no acompanhamento psiquiátrico contínuo. O que a legenda viral conta é outra coisa, e essa outra coisa não se sustenta diante do que disseram a UPA, a PM e a Prefeitura de Guanambi.
Fontes
- Mulher em surto psicótico invadiu UPA de Guanambi a bordo de motocicleta — Agência Sertão — 2024-05-24
- Vídeo: Mulher invade UPA com moto em cidade do Sudoeste baiano — A TARDE — 2024-05-25
- INVADIU DE MOTO: Mulher em surto psicótico invade UPA em Guanambi — Informe Baiano — 2024-05-25
- VÍDEO – Mulher invade UPA de moto para acordar médicos que estavam dormindo — Diário do Centro do Mundo — 2024-06-25
- Vídeo: Mulher invade UPA pilotando uma moto para acordar médicos — Super Rádio Tupi — 2024-06-25








