Embaixo de um jambeiro carregado, com a polpa avermelhada espalhada pelo chão e já começando a fermentar no calor, um ouriço-cacheiro aparece de pé, cabeça caída, o focinho quase encostando no peito. A imagem fofa virou tema de discussão biológica: animal silvestre fica bêbado de fruta caída? A resposta curta é sim, mas tem letra miúda.
O cardápio do ouriço-cacheiro inclui jambo, sim

O bicho da foto é um ouriço-cacheiro, também chamado de porco-espinho-brasileiro, gênero Coendou. A Fauna Digital do Rio Grande do Sul, mantida pela UFRGS, descreve o cardápio do animal de forma direta: ele se alimenta de folhas, flores, frutas e até cortiça, e costuma passar o dia imóvel no topo das árvores, descendo principalmente à noite para comer. Jambo caído maduro, doce e cheio de polpa açucarada, entra com folga no menu de qualquer roedor frugívoro da Mata Atlântica e da Amazônia.
O detalhe que muda tudo é o tempo. Jambo no chão, sob sol tropical, fermenta em poucas horas. O açúcar da polpa começa a virar etanol pela ação de leveduras selvagens presentes na casca da fruta, o mesmo processo que produz vinho, cachaça e cauim indígena. Quem come fruta caída de jambeiro, mangueira ou jaboticabeira está, na prática, comendo uma versão silvestre e levemente alcoólica do alimento.
A ciência diz que animal silvestre fica bêbado mesmo

A National Geographic Brasil publicou em 2023 uma reportagem assinada pela jornalista de ciência Liz Langley reunindo evidência sobre o consumo de álcool no reino animal. A resposta dos especialistas ouvidos foi categórica: de moscas e borboletas a mamíferos, várias espécies podem ficar embriagadas, conscientes ou não, ao consumir frutas fermentadas e néctar com teor alcoólico. A entomologista Katy Prudic, da Universidade do Arizona, conta que já encontrou borboletas dentro de latas de cerveja, e pesquisas de 2008 mostraram que 35 espécies de mariposas eram atraídas por armadilhas montadas com vinho e cerveja.
Reportagem do ND Mais sobre um estudo internacional vai na mesma linha: cientistas concluíram que o consumo de etanol natural é muito mais comum entre animais selvagens do que se imaginava, e está presente do dia a dia de insetos a chimpanzés. A coluna de Anna Marina no Estado de Minas lembra que primatas como chimpanzés foram filmados em campo dividindo frutas fermentadas em grupo, num comportamento que pesquisadores comparam ao de humanos socializando com bebida.
Ou seja, a premissa biológica do que aparece na imagem se sustenta. Ouriços comem fruta caída, jambo caído fermenta, e mamífero que come fruta fermentada pode, sim, ficar lerdo.
A letra miúda: nem todo bicho cambaleando está chapado

É aqui que entra um alerta importante, levantado pelo site de checagem Boatos.org. O caso mais famoso de "animais bêbados", o vídeo dos elefantes, javalis e macacos cambaleando depois de comer marula na África, virou meme mundial e até serviu de marketing para o licor Amarula. Só que o documentário original, Animals Are Beautiful People, foi reanalisado por biólogos: estudos apontaram, e o próprio diretor admitiu, que parte dos animais foi sedada antes da filmagem. O teor alcoólico da marula caída raramente passa de 3%, e um elefante teria que comer uma quantidade absurda da fruta para ficar visivelmente bêbado.
Pesquisadores que estudam o assunto, como os citados pela National Geographic, fazem ressalvas parecidas. Muitos frugívoros desenvolveram enzimas hepáticas mais eficientes que as humanas para metabolizar etanol justamente porque convivem com fruta fermentada há milhões de anos. Em outras palavras, o bicho costuma aguentar bem mais álcool do que parece, e nem sempre o que se vê de "cara de ressaca" em vídeo viral é embriaguez de fato.
Então o ouriço da foto estava bêbado?

Não dá para cravar. Ouriços-cacheiros são animais estritamente noturnos, e durante o dia costumam dormir empoleirados ou enroscados em galho, focinho enfiado no peito, exatamente na pose da imagem. Encontrar um cochilando perto do alimento que estava comendo ao amanhecer é normal. Pode ter rolado uma fermentação extra que deixou o roedor mais lento, pode ser só sono pesado de bicho noturno surpreendido pela luz do dia.
O que a literatura científica garante é o seguinte: a história não é absurda. O cardápio bate, a química bate, o comportamento bate. Só vale resistir à tentação de transformar todo bicho parado debaixo de uma fruteira em personagem de comédia de boteco, porque, como mostra o caso marula, a realidade biológica costuma ser menos pitoresca e mais interessante do que a legenda viral.
Fontes
- Os animais ficam bêbados? — National Geographic Brasil — 2023-02-22
- Animais selvagens ficam 'bêbados' mais do que imaginamos, aponta estudo — ND Mais — 2024
- Ingerir álcool, hábito do ser humano, também é comum entre os bichos — Estado de Minas — 2024-11
- Animais ficam bêbados após comer fruta chamada Marula (Amarula) #boato — Boatos.org — 2020-02-29
- Jambo: veja origem e benefícios da fruta — Diário do Nordeste — 2024



