O sujeito empurra o carrinho devagar, freia em frente à prateleira dos ovos, olha pro preço e congela. A cara é de quem fez uma conta rápida e não gostou do resultado. Quem filmou achou graça, mas a reação ficou famosa porque é, hoje, praticamente nacional.
A cena que todo mundo já viveu

Você entra no mercado pensando em comprar uma dúzia de ovos pra fazer aquele bolo simples de domingo. Chega na gôndola, olha a etiqueta e dá um passo pra trás, como se o preço fosse te morder. A expressão de espanto, meio confusa, meio resignada, virou um gênero próprio de vídeo nas redes brasileiras em 2025 e 2026: cliente parado, boca entreaberta, calculando se aquilo ali cabe ou não no orçamento da semana.
Não é encenação. É só o reflexo de uma conta que ficou difícil de fechar.
O ovo, que era o "plano B barato", virou vilão da inflação

Por muitos anos, ovo foi o alimento de socorro do brasileiro. Quando a carne pesava demais, a dúzia resolvia. Em 2025, esse arranjo desmoronou. Segundo levantamento citado pelo site OvoSite com base no Cepea/Esalq, o preço do ovo subiu mais de 37% no acumulado parcial daquele ano, com alta real de 34,13% nos ovos brancos e 42,8% nos vermelhos e caipiras em relação ao mesmo período do ano anterior, conforme reportagem da CNN Brasil.
A agência Aos Fatos explicou que, junto com o café moído, o ovo foi um dos itens que mais puxou o IPCA de alimentos pra cima. O efeito não foi só estatístico: a alta gerou reclamação nas redes sociais quase imediata, com gente postando foto da gôndola como se fosse manchete.
Os motivos, segundo análise do portal FDR e do próprio setor produtivo, combinam vários fatores: encarecimento do milho e do farelo de soja (ração das poedeiras), demanda forte impulsionada pela substituição da carne, exportação aquecida e fatores sazonais como a Quaresma. Em algumas capitais, como Recife, o impacto foi ainda maior do que a média nacional.
Em 2026 melhorou? Sim, mas pouco

O consumidor que entrou em 2026 esperando alívio teve uma surpresa amarga. Reportagem mais recente da CNN Brasil mostrou que os preços quase dobraram no início do ano, na comparação com o fechamento de dezembro, mesmo que ainda permanecessem abaixo do pico assustador de fevereiro de 2025. Ou seja: o patamar caiu um pouco em termos reais, mas continua incomodando.
Não é só ovo, claro. É arroz, é café, é carne, é o pacote inteiro. Mas o ovo virou o símbolo porque sempre foi o item "barato por definição". Ver dúzia passando de R$ 15 ou R$ 20 em algumas regiões tem o mesmo efeito psicológico de ver gasolina subir: bate forte porque é referência.
Por que esses vídeos não param de viralizar
A cena do cliente paralisado no corredor virou um pequeno gênero, e não por acaso. Sites regionais como o PA4 mostraram que até supermercados começaram a aderir, produzindo conteúdo cômico em cima da própria alta de produtos básicos como ovos e café. É o lojista rindo da própria etiqueta pra não chorar.
Teve também a idosa que se emocionou em entrevista na frente do supermercado e viralizou ao dizer que chega no mercado e não sabe mais o que comprar, e a argentina de férias no Brasil que se chocou ao contrário, achando tudo barato comparado à hiperinflação de Buenos Aires. A mesma gôndola, dependendo de quem olha, vira drama ou pechincha.
No fundo, o vídeo do moço parado no setor dos ovos é etnografia barata: capta um gesto que se repete em milhões de carrinhos por semana. A gente ri porque se reconhece. A inflação dos alimentos no Brasil tem indicadores oficiais, tem gráfico, tem boletim do IBGE. Mas o termômetro mais sincero ainda é a cara que a pessoa faz quando vira a esquina do laticínio e dá de frente com o preço da dúzia.
E o bolo de domingo?
Segue de pé. Só que com menos ovo, ou trocado por aquela receita "sem ovo" que a tia mandou no grupo da família. Enquanto isso, os corredores dos mercados seguem produzindo a expressão facial mais brasileira de 2026: aquele meio-sorriso constrangido de quem olhou pro preço, fez a conta e fingiu que ia comprar outra coisa mesmo.




