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Comportamento · Trabalho

O trote dos novatos: por que toda empresa brasileira tem alguém pra mandar você buscar a chave de fenda canhota

Pedir óleo de cotovelo, fingir que o hino nacional toca todo dia, mandar o aprendiz atrás de uma ferramenta que não existe. O trote profissional virou rito de passagem brasileiro, e a psicologia explica por quê.

Publicado em 04 de maio de 2026 · 6 fontes verificadas
O trote dos novatos: por que toda empresa brasileira tem alguém pra mandar você buscar a chave de fenda canhota
Imagem: Reprodução / Estado de Minas

Você chega no primeiro dia, ainda decorando o nome dos colegas, e alguém te pede pra buscar uma chave de fenda canhota no almoxarifado. Cinco minutos depois você tá perguntando pro encarregado se ele sabe onde guardaram a tal ferramenta, enquanto a copa inteira ri escondido. Bem-vindo ao Brasil corporativo.

A pegadinha que ninguém combinou e todo mundo conhece

Colegas fazem pegadinha com funcionária novata e vídeo viraliza
Imagem: Super Rádio Tupi · Imagem: Super Rádio Tupi

Não existe manual, não existe treinamento, não existe RH que ensine. Mas em alguma medida, todo brasileiro que já entrou de novato num lugar passou por algum tipo de armação dos colegas mais antigos. Pode ser leve, pode ser elaborada, pode envolver vinte pessoas combinadas no WhatsApp pra fingir que cantar o hino nacional faz parte do expediente. É um clássico tão repetido que já virou conteúdo de viralização recorrente nas redes.

Em 2024, um vídeo gravado dentro de um escritório mostrou justamente essa cena. No primeiro dia da funcionária nova, os colegas se levantaram em coro e começaram a cantar o hino nacional, fazendo de conta que era ritual obrigatório da empresa. A novata entrou no clima, tentou acompanhar a letra e só percebeu a brincadeira no meio do segundo verso, segundo reportagem do Estado de Minas. A história viralizou, foi reproduzida por outros veículos como a Super Rádio Tupi e abasteceu uma legião de comentários do tipo "queria trabalhar com gente assim".

O catálogo informal dos trotes brasileiros

Violência Psicológica Emocional: Trote nas Faculdades
Imagem: Telavita · Imagem: Telavita

A pegadinha do hino é uma versão moderna e suave. O cardápio tradicional do trote profissional brasileiro é mais bruto e tem variações específicas por categoria.

  • Oficina e construção civil: mandar o ajudante buscar a chave de fenda canhota, o nível de bolha sem bolha, o prego sem cabeça, a serra de pó, o esticador de borracha.
  • Cozinha de restaurante: pedir pro auxiliar trazer um saco de gelo seco molhado, ou um tempero chamado "sal sem sódio".
  • Hospital e clínica: mandar o estagiário buscar a chave do bisturi elétrico, ou avisar que o pager de plantão precisa ser "calibrado" no setor X.
  • Escritório: o famoso "ramal da diretoria" que cai na pizzaria, o falso e-mail do RH pedindo dados, a reunião marcada que nunca existiu.
  • Indústria mecânica: o pedido recorrente de óleo de cotovelo, graxa de pinguim ou massa de calibrar parafuso reto.

O ponto comum é sempre o mesmo: o novato sai correndo atrás de algo que não existe, descobre a brincadeira na cara de alguém rindo, e a partir dali "entra" no grupo.

Por que a gente faz isso? A explicação dos antropólogos

As muitas faces de um rito de passagem
Imagem: Gazeta do Povo · Imagem: Gazeta do Povo

A literatura acadêmica brasileira que estuda esse tipo de comportamento vem majoritariamente da pesquisa sobre trote universitário, mas as conclusões servem pra qualquer ambiente de chegada coletiva. O conceito-chave é rito de passagem.

A tese mais citada é a do professor Antônio Zuin, do Departamento de Educação da Universidade Federal de São Carlos, autor do livro O trote na universidade: passagens de um rito de iniciação. Em análise reproduzida pela plataforma Telavita, Zuin argumenta que o trote é uma encenação simbólica de hierarquia: o veterano testa o novato, o novato aceita o teste, e essa aceitação cria o vínculo de pertencimento.

A psicóloga Cintia Copit Freller, do Instituto de Psicologia da USP, descreve o mesmo fenômeno em entrevista publicada no portal do IP-USP. Ela classifica o trote pacífico como "um ritual de passagem, um momento que precisa ser marcado". O grupo precisa do gesto explícito de iniciação pra reconhecer o recém-chegado como um dos seus.

A verbete da Wikipedia sobre trote estudantil, construída a partir de bibliografia acadêmica, traz a definição clássica: trote é "um rito de passagem às avessas", uma prática que organiza relações de poder dentro do grupo. A versão profissional segue a mesma lógica em escala reduzida, sem álcool e sem pintura no rosto.

A linha entre brincadeira e abuso

O problema é que essa lógica de pertencimento pode descambar rápido. A Gazeta do Povo lembra que pesquisas em psicologia, antropologia e direito vêm documentando há décadas como o trote, quando ultrapassa o limite da catarse coletiva, vira humilhação. No trabalho, isso aparece quando a pegadinha foca em quem tem menos poder, quando se repete só com a mesma pessoa, ou quando envolve componentes de gênero, raça ou condição social.

A pegadinha do hino, da chave canhota e do óleo de cotovelo funciona porque é circular: todo mundo já passou por uma, todo mundo um dia vai aplicar uma. É um contrato implícito de igualdade dentro da hierarquia. Quando o trote vira via de mão única, perde a função antropológica e vira assédio. A diferença, no fim, está no riso do dia seguinte: se o novato volta no outro dia e ri junto, foi rito de passagem. Se ele não volta, foi outra coisa.

Fontes

Post original

Esta matéria nasceu deste post do @brazilposting: