A cena parece truque de edição. Uma lancha corta a água em velocidade de cruzeiro, o piloto olha pra frente como se nada estivesse acontecendo, e bem ali, do lado dele, um ganso enorme fica suspenso no ar quase parado, asas semiabertas, encostado no para-brisa da embarcação. Atrás, na esteira, outras aves batem asas freneticamente tentando alcançar. A diferença entre o que voa de boas e o que sua na água tem nome e tem ciência.
O bicho não está voando: está surfando no ar da lancha

Quando uma embarcação avança em alta velocidade, o casco e o para-brisa empurram uma massa de ar pra cima e pra trás. Esse fluxo cria uma região de baixa pressão e correntes ascendentes logo ao lado e atrás do veículo, o famoso vácuo aerodinâmico, ou slipstream. Qualquer coisa que entre nessa zona, seja um ciclista, um carro de Fórmula 1 ou uma ave, gasta muito menos energia pra se manter em movimento. A Wikipedia em inglês) descreve o fenômeno como uma técnica em que dois corpos em movimento se alinham para reduzir o arrasto do que vem atrás, e registra explicitamente que aves migratórias evoluíram pra explorar exatamente esse princípio.
O ganso da cena descobriu, sem ter lido nada sobre o assunto, que ali ao lado do para-brisa existe uma escada de ar grátis. Em vez de bater asa contra o vento, ele se encaixa no fluxo gerado pela própria lancha e plana praticamente sem esforço. O resto do bando, voando ou nadando sem aproveitar esse corredor, fica pra trás.
A mesma física que explica o voo em V

A explicação para o truque do ganso da lancha é a mesma que biólogos usam há décadas pra entender por que gansos, patos e outras aves grandes voam naquela formação em V tão característica do céu de outono no hemisfério norte. Cada asa, ao bater, gera vórtices nas pontas que jogam ar pra cima logo atrás e ao lado. A ave seguinte se posiciona exatamente nesse ponto de ar ascendente e ganha sustentação de graça.
Uma reportagem do Estado de Minas sobre um estudo que monitorou íbis-eremitas com sensores presos às asas mostrou que as aves não escolhem a posição na formação por estética: elas calibram a distância e o ritmo de batida exatamente para casar com o vórtice da companheira da frente, sincronizando o bater de asas para colher o máximo de impulso. Uma matéria do Edital Concursos Brasil resume o efeito de forma direta: a corrente de ar ascendente gerada pelo batimento de quem vai na frente reduz a resistência para quem vem atrás, permitindo que o bando inteiro economize energia.
Esse ganho não é pequeno. Cálculos clássicos citados em vários textos divulgativos estimam que um bando em V consegue cobrir até cerca de 70% a mais de distância do que cada ave voando isolada conseguiria, embora o número exato dependa da espécie e das condições.
Por que dá pra fazer isso com lancha, caminhão ou trator

O mesmo princípio é descrito de forma técnica num artigo sobre slipstream da publicação Bolt Flight: corpos em movimento criam zonas de turbulência e baixa pressão que outros corpos podem aproveitar para gastar menos energia. O texto cita especificamente o caso das aves migratórias praticando vortex surfing, mas o conceito vale para qualquer objeto que crie um rastro de ar.
Por isso, ao redor do mundo, é comum aparecer registro parecido com o do vídeo: gaivotas que acompanham balsas e ferries por horas a fio sem bater asa, pelicanos que planam alinhados com a crista de ondas, e até pequenas aves que viajam tranquilas sobre a cabine de caminhões em estrada. Não é mansidão nem coincidência. É a ave usando o veículo como uma asa da frente, exatamente como faria com outro membro do bando.
O ganso é mais esperto do que parece, ou só obediente à física?
A leitura mais romântica da cena é dizer que o bicho é genial. A leitura mais correta é dizer que ele está fazendo o que aves grandes fazem desde antes de existir lancha: procurar a coluna de ar mais barata. Aves migratórias dependem dessa economia para atravessar milhares de quilômetros sem morrer de exaustão, e o instinto de procurar correntes ascendentes está calibrado desde o primeiro voo.
Do ponto de vista do animal, o para-brisa daquela lancha não é diferente do dorso de outro ganso lá na frente do V. É só mais uma fonte de empuxo grátis. E enquanto os companheiros se debatem na água tentando alcançar, ele faz a travessia inteira com cara de quem está só passeando, porque, do ponto de vista energético, é mais ou menos isso mesmo.