As imagens são duras e voltam a circular nas redes com nova legenda dramática, mas a cena é antiga e tem identificação completa: foi gravada em Rio das Pedras, no interior de São Paulo, no sábado 3 de agosto de 2024, pela câmera de monitoramento da própria empresa onde o agressor trabalhava.
O que mostra o vídeo

A gravação capta um homem parando no meio de uma rua de paralelepípedo, ao lado de um carro estacionado, e desferindo golpes contra um cachorro que aparece deitado. Em outros trechos da mesma filmagem, ele bate no animal com um cinto, dá chutes e arrasta o cão pelas patas, atravessando a faixa de pedestres até a calçada de uma empresa de autopeças. O registro tem horário, posição fixa de câmera de segurança e placa de veículo visível, elementos que ajudaram a polícia a identificar todo mundo envolvido.
A versão que voltou a viralizar acrescenta a frase 'na base do olho no olho', sugerindo um confronto entre homem e cachorro. A descrição é dramatizada: o vídeo mostra agressão unilateral, com o cão se encolhendo e, em determinado momento, se virando 'como se fosse para receber carinho', segundo a descrição feita pela Polícia Civil à CBN Campinas. É nesse instante que ele leva mais um chute.
Onde e quando aconteceu

O caso foi registrado em Rio das Pedras, município da região de Piracicaba, no interior paulista. A empresa fica no entroncamento das rodovias Cornélio Pires e do Açúcar. As agressões aconteceram no sábado 3 de agosto de 2024 e o homem foi localizado dois dias depois, numa operação da Delegacia Especializada em Investigações Criminais (DEIC) de Piracicaba, conforme apurado pelo ND Mais e pela CBN Campinas.
Na ocasião, o agressor era funcionário da empresa de autopeças. Confessou as agressões e disse aos investigadores que estava 'arrependido', alegando que praticou a violência porque o cachorro 'entrava na empresa com frequência'.
Quem é o cachorro
O animal não era abandonado nem de rua. Os tutores foram identificados pela polícia. Eles moram num sítio vizinho à empresa e relataram que o cachorro tinha o costume de escalar o alambrado e fugir do terreno. Assim que souberam que ele estava no pátio da empresa de autopeças, foram buscá-lo. Não sabiam, segundo o relato, que tinha rolado agressão até verem as imagens.
Apesar dos chutes, das cintadas e do arrasto, a Polícia Civil informou que o cão não apresentou lesões visíveis quando foi avaliado.
O que diz a lei
O homem passou a responder pelo crime de maus-tratos a animais, previsto no artigo 32 da Lei Federal 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais. O dispositivo pune quem 'pratica ato de abuso, maus-tratos, fere ou mutila animais silvestres, domésticos ou domesticados'. Em casos envolvendo cães e gatos, a pena foi endurecida pela Lei 14.064/2020, podendo chegar a cinco anos de prisão, além de multa e proibição de guarda.
Na ocasião, segundo a CBN Campinas, ele não ficou preso porque não havia situação de flagrante, e respondeu em liberdade. A apuração ficou a cargo da DEIC de Piracicaba.
A reação da empresa
Com a repercussão do vídeo, a empresa de autopeças publicou nota dizendo estar 'indignada' com a conduta do funcionário. 'Enfatizamos que somos uma empresa séria, e queremos deixar claro que não compactuamos com essa atitude, e já foram tomadas medidas cabíveis em relação ao ocorrido', informou o comunicado reproduzido pelo ND Mais.
Por que volta a viralizar
É comum que vídeos de violência contra animais voltem a circular meses ou anos depois, normalmente com legendas novas que apagam o contexto original (cidade, data, desfecho judicial). No caso de Rio das Pedras, a cena é a mesma: a câmera, o paralelepípedo, o carro estacionado e a calçada da empresa coincidem com as imagens divulgadas pela imprensa do interior paulista em agosto de 2024. A história, portanto, é verdadeira, está documentada por dois veículos independentes e tem desdobramento policial registrado. A moldura 'olho no olho', porém, é construção editorial de quem republicou: o vídeo mostra agressão, não confronto.