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Fact-check · Animais

Não, aquelas duas tartarugas não brigam há 120 anos: o que o vídeo realmente mostra

O reel viraliza com a legenda dramática de uma rivalidade centenária, mas a espécie do vídeo nem chega aos 120 anos de vida. O que acontece ali é briga por território, explicada por zoológico oficial.

Publicado em 16 de maio de 2026 · 4 fontes verificadas
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Não, aquelas duas tartarugas não brigam há 120 anos: o que o vídeo realmente mostra
Imagem: Reprodução / Taipei Times

A história aparece sempre igual: duas tartarugas gigantes condenadas a se odiar há mais de um século. O vídeo passa, a legenda emociona, e a internet compartilha. Só que a aritmética da própria espécie já derruba a fábula antes mesmo de qualquer biólogo abrir a boca.

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A lenda da "inimizade de 120 anos"

African spurred tortoise (Centrochelys sulcata)
Imagem: Wikipedia

A história aparece sempre com o mesmo enredo: duas tartarugas gigantes que se odeiam há mais de um século, condenadas a dividir o mesmo recinto até a morte. O vídeo mostra uma empurrando, virando ou perseguindo a outra, e a legenda fecha o pacote dizendo que elas convivem "há 120 anos com a inimiga". Comove, viraliza, e é falsa.

O problema começa pela aritmética simples. A briga retratada nesses vídeos costuma envolver tartarugas-de-esporas-africanas, conhecidas como sulcatas, que são as mais comuns em zoológicos e criadouros do mundo todo. Segundo a ficha técnica da espécie compilada pela Wikipédia a partir de literatura especializada, sulcatas vivem em média 54 anos em cativeiro e raramente passam dos 75 na natureza. Ou seja: nenhuma das duas brigonas dos vídeos virais chegou a 120 anos, e a chance de uma dupla específica ter chegado lá juntas beira zero.

O que realmente aparece nos vídeos

Watch a Tortoise Rescue Another in Distress, Was It Trying to Help?
Imagem: National Geographic

Em dezembro de 2025, um caso quase idêntico viralizou em Taiwan. Uma foto mostrava uma sulcata de barriga para cima sendo "ajudada" por um tratador, enquanto outra tartaruga avançava por trás. O Zoológico de Taipei publicou uma nota oficial, reportada pelo Taipei Times, explicando o que estava acontecendo: a tartaruga não estava sendo socorrida, e sim virada de propósito. Era uma briga territorial entre machos.

A descrição do zoo é didática. Machos de sulcata recolhem a cabeça para dentro do casco, empurram as quatro patas contra o chão e usam a parte de baixo da carapaça como aríete. Quando conseguem virar o adversário, não param: continuam o ataque com o oponente imobilizado. Quem chega de fora interpreta como "socorro", mas o que está rolando é o vencedor tentando finalizar o serviço. O tratador da foto, segundo o zoo, levou cabeçada porque a tartaruga vitoriosa o tratou como aliado do inimigo.

O comportamento é tão previsível que o próprio zoológico relacionou os ataques à temperatura. Sulcatas geralmente brigam entre maio e julho, na estação quente. Como o caso de Taipei aconteceu em dezembro, num recinto aquecido por lâmpadas térmicas, os animais ficaram confusos e entraram em modo de defesa de território fora de época.

Territorial, não rancoroso

A Wikipédia, citando estudos de campo, é direta: machos de Centrochelys sulcata são "extremamente territoriais" e combatem entre si pelo direito de reprodução. Uma das principais causas de morte em adultos é justamente ficar de barriga para cima depois de uma briga, sem conseguir se desvirar antes de superaquecer ao sol.

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A National Geographic já tinha registrado uma confusão parecida em 2014, num vídeo de tartarugas que parecia mostrar uma "resgatando" a outra. Especialistas consultados pela revista concluíram que se tratava, na verdade, de corte agressivo ou disputa, não de empatia.

Onde a confusão pode ter nascido

A fábula dos "120 anos de inimizade" provavelmente é uma versão deformada de uma história real e bem documentada: a de Bibi e Poldi, duas tartarugas-gigantes-de-aldabra do zoológico de Klagenfurt, na Áustria, que viveram juntas por cerca de 115 anos e se separaram quando Bibi começou a atacar Poldi. O caso virou notícia mundial em 2012 e segue sendo citado em revistas como a Atlas Obscura. A diferença é que aldabras realmente passam dos 100 anos, e a "separação" foi um casal de fato, não rivais de sempre.

No meme brasileiro, a história embaralhou tudo: pegou a longevidade das aldabras, plantou em vídeos de sulcatas brigando, inflou o tempo de convívio e tirou qualquer contexto biológico.

O que sobra de verdade

O vídeo é real. As tartarugas estão mesmo brigando. Mas:

  • Não têm 120 anos.
  • Não se conhecem desde sempre.
  • Não estão presas com uma "inimiga".
  • Estão disputando território, e o comportamento dura minutos, não décadas.

A próxima vez que o reel aparecer no feed com a legenda dramática, vale lembrar: o roteiro está errado, e quem escreveu nunca olhou a ficha da espécie.

Fontes

Post original

Esta matéria nasceu deste post do @brazilposting:

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